terça-feira, outubro 25, 2005

Bancos no Corredor


O meu meio de transporte publico favorito é o autocarro, todas as manhãs vou para o estágio e todas as noites volto do trabalho num destes exemplares de economia publica, não por opção mas por falta de $$$ para comprar e manter o meu próprio veiculo (carro ou moto). E já de algum tempo para cá tenho notado um fenómeno de egoísmo muito estranho e ilógico, o facto de quando existem dois bancos vazios dentro de um autocarro, ao contrario do que seria lógico as pessoas não se sentam o mais perto da janela possível, mas sim o mais perto do corredor que podem. Varias vezes já me questionei relativamente ao motivo que faz com as pessoas ao terem que dividir este banco com outras pessoas, não se aproximam da janela, mas preferem levantar-se e voltar a sentar-se do que encostarem-se a janela.

Os motivos que me ocorrem para tal seriam: a esperança de que ninguém mais ocupe o lugar ao seu lado; a certeza que vão ter que correr muito quando chegarem a sua paragem; ou uma vontade louca de se roçarem com as pessoas que se vão sentar ao seu lado.

A verdade é que ao ter morado em Salvador aprendi que por lá as pessoas fazem isto para que não se sente ao seu lado um ladrão e lhes roube tudo (até mesmo os ténis), no entanto nunca ouvi relatos de pessoas que tivessem temido pela sua vida dentro de um autocarro da carris. Mesmo assim as pessoas gostam mesmo é de se sentar nos corredores nos autocarros.

Talvez isto seja reflexo de uma forma de estar na vida. Será que estas pessoas estão no corredor da vida? Pode ser que gente como eu que se senta a janela sejam as pessoas que estão a ver o que se passa na sua vida em vez de estar no corredor da vida a tentar fazer algo por si. Mas pode ser também que essas pessoas sejam aquelas que ao ver um por do sol lindo, pensem no dano que esse sol pode fazer aos seus olhos. Eu sou mais do tipo de pessoa que prefere agradecer por estar a ver mais um por do sol lindo, e quanto a ferir a minha vista, tenho óculos de sol!

O casamento de dois artistas


Sábado, 22 de Outubro 2005. Apanhei um autocarro, daqueles cor de laranja, muito velhinhos e muito barulhentos que percorrem Lisboa a tantas décadas. Dentro haviam algumas pessoas com aspecto cansado, olheiras que mostravam um fim de semana mais agitado do que esperado e um motorista feliz por estar ali naquele momento.

Entramos com o objectivo de voltar para a nossa casinha, pequena mas aconchegante (consolo de pobre) onde a volta ao “nadasefaz” se previa como o mais provável destino do nosso tempo.

Após uma curta viagem saltitante do bairro da Lapa ao começo do bairro dos Prazeres, descemos a frente dos jardins do Museu (Nacional) de Arte Antiga. Fomos para o miradouro que estes jardins tem abertos ao publico. Jardins estes com forma semicircular, com uma arvore cujo topo apresentava uma cobertura de flores cor de rosa, onde o sol batia de frente e onde os bancos lá postos são protegidos do sol pelo topo rosa que tão linda visão nos proporcionava. Lá sentado a olhar para o pôr do sol fumei um cigarro pequeno mas que muito condizia com aquele momento no qual nos abraçávamos com muito amor.

Ao terminar o meu cigarro, apaguei-o num cinzeiro que por lá estava. Nesse momento pus-me de joelhos e proferi a pergunta que creio já ter sido proferida muitas vezes antes no mesmo local onde estávamos, perguntei a Kasia se queria passar toda a sua vida a meu lado, como minha mulher e eu como seu esposo.

A resposta positiva veio seguida de uma pequena mas marcante lágrima que escorreu lentamente o seu rosto seguida de um riso inocente mas não ingénuo. Na minha mão como que por magia surgiu um anel prateado, que antes me fora oferecido pela própria Kasia, que imediatamente foi posto na sua mão esquerda no seu dedo anular. Após troca de juras de amor eterno o vento bateu suavemente no topo da arvore, como que dando a sua bênção a esta união e comunicando-nos a sua intenção de nos obrigar a manter as promessas acabadas de fazer. Sorrimos juntos e Kasia apertou-me com convicção contra o seu peito e eu fechei os olhos e cheirei aquele lindo momento.

A partir daquele breve momento, legalmente sem valor, ambos sabíamos que acontecesse o que fosse haveria alguém que estaria lá para nos apoiar sempre que a vida nos pedisse uma força que não soubéssemos de onde tirar. Essa força viria tanto da natureza como um do outro. O amor de dois artistas tem muito que se lhe diga.
sexta-feira, outubro 21, 2005

O teleembuste !




Desde Novembro do ano passado que tenho o “prazer” de trabalhar como operador de call center (vulgo gajo do telemarketing). Comecei por trabalhar para o monstro das telecomunicações, a PT. Estive lá até Agosto deste ano. Depois fartei-me de trabalhar numa empresa que maltrata tudo e todos só porque pode. Carrega planos de preços as pessoas (consumidores) sem lhes perguntar qual a sua opinião, muda os horários dos seus funcionários avisando-os 48 horas antes, sem justificação, cobra chamadas aos consumidores que estes nunca fizeram e entre outros, principalmente, cobra-lhes 15 euros só para terem um telefone em casa. A juntar ao facto de trabalhar para esta maravilha de empresa, tinha ainda o prazer de ser cumprimentado pelo meu superior directo (de nome Fernando) com expressões como “Vai para o ca**lho!”. Meia hora depois de este individuo ser meu chefe já tinha ouvido 15 minutos de conversa a respeito de como eu não poderia tratar “desta” forma os funcionários desta senhora (a chefe). Como não sabia de que me falavam pois ainda não tinha tempo para tratar de forma nenhuma os tais funcionários onde eu era suposto me enquadrar, pedi rescisão de contrato com efeito imediato (fui me embora).

Como seria apenas lógico, comecei outra vez a busca pelo trabalho temporário ideal. Mandei algumas dezenas de curricula vitae e obtive no mesmo dia um retorno por parte de uma pequena agencia nova, onde marquei na manhã seguinte uma entrevista. Fui para a tal entrevista “armado” de tudo o que se leva nestas ocasiões: Um cadernito, uma caneta, um jornal debaixo do braço e um sorriso triunfador. Um jovem de uma faculdade vizinha recebeu-me no seu pequeno escritório. Prometeu-me este mundo e o outro e no meio marcou-me uma entrevista num pequeno call center perto do Saldanha (onde é o meu estágio). Com grande entusiasmo (o que só dois saudosos ex-universitários podem ter) deu-me um abraço e prometeu-me que tudo iria correr as mil maravilhas.

No dia seguinte comecei uma formação que prepararia para toda a minha vida profissional (háháhá) em apenas 2 dias. Após este dois dias deram-me magnificas noticias, na segunda feira aquele senhor tão parecido com o Zézito Castelo Branco ia me contactar para me informar de quando seria o meu inicio laboral nesta bela instituição. Até hoje estou a espera desse telefonema.

Recomecei então a minha busca pelo meio de labuta que iria pagar as minhas contas. Mandei mais algumas dezenas de curricula vitae e no mesmo dia fui contactado por outra agencia de teletrabalho, para não me repetir digo apenas que após mais três dias de formação, fiquei lá mais cinco dias. Nestes cinco dias a minha mãe, coitada, foi ofendida umas dezenas de vezes, tentei vender canais de televisão a pessoas mortas, a desempregados, a pessoas que não tem tempo para ver a caixinha que governa o mundo e a pessoas que não sabem o que é o canal Playboy. Após esses cinco dias alguém já gritava comigo outra vez e me ameaçava com o corte do precioso dinheiro das contas. Escrevi mais uma carta de demissão e fugi dali a sete pés.

Três empresas por onde passei, mais rápido ou devagar para apenas chegar a conclusão que todos querem vender frigoríficos a esquimós não sabem como. TENTEM VENDAR AS PESSOAS ALGO QUE ELAS QUERIAM MESMO. NÃO NOS CHAMEM DE ESTUPIDOS!!
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