segunda-feira, abril 15, 2002

A Autobiografia de Um Filho Rico de Um Pai Pobre


Com apenas 21 anos de idade não pode haver muito a contar sobre uma pessoa, ou pode? Com esta pergunta comecei uma introspecção. Poderia começar por dizer que nasci num dia de sol enquanto o mundo recebia uma noticia que deixava muito feliz a humanidade, mas a verdade é que eu não me lembro de tal dia nem de muito dos meus primeiros dias de vida. Talvez me lembre do meu primeiro acidente rodoviário e isso possa ser um ponto de partida para uma curta autobiografia de um filho de um diplomata. Ou como me foi dito um dia um dia por outro filho de diplomata, sou um filho rico de pai pobre.

No ano de 1980 na cidade francesa de Clermont Ferrand nasceu o pequeno António Pinto de Mesquita. Filho do promissor e jovem diplomata Símeão Archer Pinto de Mesquita. Nascia, algo banal e tantas vezes contado sobre a vida de tantos. Mas essa foi a descrição que eu ouvi de um nativo que lá vivia nessa época e que devo confessar ser a verdade.

Mas as minhas primeiras memórias são de uma tarde na qual eu andava de bicicleta e ao ver um lindo par de olhos também numa bicicleta, acelerei tanto quanto podia para caça-los. Isto rendeu-me um sermão e umas nódoas negras e o que creio ser a minha primeira memória do que gosto de chamar a minha vida. Memórias curtas e de pouco interesse como estas são tudo o que carreguei para Lisboa no ano de 1985.

Ao chegar ao que deveria ser a minha casa no fim das minhas andanças na representação da minha amada pátria entendi por primeira vez na vida que um diplomata só é respeitado quando representa o seu pais. Pois na sua nação o seu salário apenas serve para comer todos os dias e para outras futilidades tais como comprar roupas para os seus filhos.

Durante os meus próximos 5 anos apenas fiz o que qualquer português nessa idade fáz, brincar, aprender o seu idioma correctamente e aprender os valores morais que tanto nos ajudam por esta vida fora. Claro que ter uma mãe criada para pensar que a cultura africana são formas de comer, de dançar, de falar e talvez de estar, não de ajudou a entender as minhas raízes africanas. Mas o meu lado português e guerreiro ajudou-me a ver que o mundo é um lugar onde não se pode sobreviver sem parar para ver que o Sol está lindo a iluminar as flores e as pombas.

O meu décimo aniversário ocorreu na cidade de Madrid, onde se fixava agora a minha residência fazia já dez dias. Para quem se lembra, a queda do muro de Berlim em 1989 ajudou a ver o mundo de formas diferentes. Por ser uma criança que sempre amou o direito à liberdade isto só poderia querer dizer que a guerra na pais em que fui produzido e onde quero voltar deveria estar perto do fim. Angola sempre teve um papel importante na minha vida. Por estranho que possa parecer só em Madrid encontrei as minhas raízes africanas, pois lá vim a conhecer muitos dos meus contactos com essa bela e no entanto tão sofrida terra. Pois lá conheci e desenvolvi uma cultura africana que poucos afro-lusitanos se podem orgulhar de ter. Aprendi que uma guerra nem sempre é lutada por dinheiro ou religião mas também por medo. Medo de não ter o que comer ou de não saber no que acreditar. Esta guerra pode ser lutada com papel escrito com tanques ou com whisky. O importante é não se esquecer que o nosso povo sofre sem saber muitas vezes por que razão.

A sociedade que conheci em Madrid pode ser muito cruel e fazer com que um jovem de 12 anos de idade pense que por ser tímido é menos que os outros, ou que por ser negro, tem culpa do desemprego de tantos espanhóis. A falta de auto estima nesta idade pré-adolescente levou-me por vezes a pensar no suicídio. O que me salvou a vida nesta época da minha vida foram os lindos olhos azuis de uma loira argentina que me acolheu nos seus braços. Isto criou um amor que poderia chamar o meu primeiro amor, mas que chamo o meu primeiro amor por duas pessoas. Victória e eu. Claro que como todo amor de adolescência teve os seus altos e baixos incluindo também inocentes beijos na boca e mais tarde o principio de uma descoberta que nos levou a conhecer coisas até então desconhecidas, tais como o crescimento do calor quando dois corpos tentam ocupar o mínimo espaço possível, estando agarrados até que se pudesse sentir o doce perfume nos cabelos do amor.

O fim de esta relação apenas me veio ensinar que com o tempo não é mais fácil dizer adeus a alguém por nós querido de todo o coração. O fim de uma relação pode ser tão doloroso como a morte de alguém muito querido, mas por vezes é algo necessário. Sem estes detalhes não daríamos tanto valor ao respirar daquela com quem partilhamos ideias, pensamentos e sensações tão simples como o tomar um café.

A minha iniciação no mundo do álcool também se deu em Espanha mas apenas no mês de Março do ano de 1995 quando o primeiro exagero por álcool me levou a descobrir o sexo, os detalhes da noite com Cristina, que era exactamente 2 horas mais velha que eu, não contarei, apenas digo que foi uma noite inesquecível para min e pela cara de felicidade dela no dia seguinte, diria que para ela também. Nunca mais achei as viagens de ski tão fascinantes depois deste episódio, mas quem me pode culpar ? A primeira vez de um adolescente é sempre algo para recordar com muito carinho.

Por volta desta época soube que o meu próximo destino seria Salvador da Bahia terra de misticismo indescritível e de tantos encantos. Com malas aviadas para o Brasil descobri que a amizade não tem fronteiras e que nada como umas cartas por ano para manter acesas várias amizades. Amigos em Madrid tenho para o resto da minha vida.

Festas quando uma pessoa abandona um lugar, vi muitas durante a minha ainda curta vida. Porem poucas vezes senti tanta pena de abandonar um lugar como ao sair das terras d´el rei Juan Carlos.

Ao chegar a cidade santa de Salvador a surpresa foi muito grande. Uma das primeiras imagens que tenho desta cidade é a da minha mãe a chorar por algo que só mais tarde viria a entender. Salvador no ano de 1995 parecia Luanda no ano de 1975 e 15 anos sem ver a cidade de criação da minha mãe mostraram-me que até os fortes caem mesmo que apenas por momentos.

Nesta terra de tanto pecado aprendi como escapar imune a quase todos os pecados que a igreja católica não condena. Beber álcool como se fosse água, guiar como se não houvesse limites para a física, praticar sexo como se as mulheres se tratassem de objectos entre outras coisas que não devo comentar pois são ilegais quase em qualquer lugar deste meu amado planeta.

Aprendi também que um por do sol tem mais valor do que muitos dias de trabalho se o primeiro for bem aproveitado. Conheci também formas de adorar os deuses que um europeu jamais poderia entender sem uma grande vivência com um povo de raízes africanas muito fortes e de crenças raramente divulgadas aos forasteiros. Apenas por ser um homem com raízes africanas mais fortes que a maioria do povo brasileiro tive acesso a tão assustadora mas eficaz forma de invocar e entender os deuses e suas tropas.

Durante os meus primeiros meses dediquei-me a dominar uma arte que até hoje amo praticar, a condução de automóveis, depois aprendi como é possível reverter cada uma das mais variadas leis rodoviárias com uma já famosa “cervejinha”, uns reais para o bolso de um policia cuja face não mais recordarei e um sentimento que ele poderá dar de comer aos seus filhos mais facilmente este mês.

Ao completar 17 anos de idade algo se passou com este jovem português que lhe deu consciência , apenas não sei o quê. Mas a verdade é que arranjei um grupo de amigos que como eu não bebiam, não fumavam e acreditavam no uso do cinto de segurança como medida de prevenção e não apenas como outra lei que nos é imposta por tão corrupta autoridade.

Aprendi também que uma tarde na praia pode ser apenas uma tarde de dominó e conversa sobre temas que nos interessam a todos mas que ninguém pode responder com certezas absolutas, tais como o destino ou qual o lado político mais correcto. Soube por fim que um jogo de futebol nunca é mais importante do que a leitura de um bom livro, ou até que qualquer livro que seja do meu interesse.

Passei nesta época a ter algo por sempre ansiara, a sensação de pertencer a um grupo de amigos de forma a que mesmo sem um elemento deste grupo, independentemente de qual, fosse possível a reunião deste e que o tempo parecesse ter parado para a reunião de gente tão diferente por um lado e tão igual por outro. Falamos de um grupo que tinha um baiano filho de argentina, um sulista neto de alemães, de um baiano neto de índios e de um português filho do mundo. Um grupo no mínimo interessante !
Namoradas tive algumas. Umas deixaram mais marca que outras, mas ao ser um pinga amor a todas entreguei o meu amor. Curiosamente a que mais tempo me aturou foi uma argentina de olhos azuis e loira, tal como o fora a minha primeira namorada. Não se pode dizer que fosse uma mania pois foram as únicas loiras que namorei até ao dia de hoje.

Para variar quando a Bahia me trazia uma sensação de ser casa foi quando soube que voltaria a minha tão amada pátria, Portugal. Não que o ano de 1999 fosse um ano sem mais marcos pessoais, apenas digo que esta foi a coisa mais marcante deste ano.

A entrada para a universidade foi algo que serviu para mostrar-me que a minha capacidade de aprender só tinha um limite, eu ! Pois enquanto outros passaram 3 anos a estudar para o grande exame de acesso a universidade, eu apenas me preocupei com passar de ano. Quando notei que faltava apenas um mês para o tal exame dediquei-me durante esse mês a estudar tudo o que me fora ensinado, a fundo, de tal forma que após ter falhado os exames às outras universidades, aquelas que não me interessavam, neste tive uma nota boa o suficiente para entrar em direito em quase qualquer universidade do mundo. Um dos motivos que me levou a tal coisa foi o facto de ter recebido noticias de Portugal que diziam que o meu falhanço neste exame era por todos uma certeza tida. Claro que uma vez dentro da Unifacs (Universidade de Salvador) e com a noticia que a meio do ano mudaria de país, o estudo deixou de fazer parte das minhas prioridade mais uma vez.

Nesta altura dediquei-me de corpo e alma a “curtir” com toda a força que me restara após um mês que quase me levou a uma quebra nervosa. Mas nunca tivera tanto dinheiro até então, ou tanta liberdade. Estamos a falar de uma altura na qual eu tinha: dois carros, 400 dolares por mês, uma casa grande com piscina, sauna e outros, alem de uma liberdade que nunca me fora dada antes. Claro que como jovem inconsciente fiz muitas asneiras que poderiam ter me levado à morte em muitas ocasiões. Mas como é sabido são os erros que nos ensinam o porque de tão chatos avisos por parte de nossos pais pela vida fora.

O retorno a Lisboa foi algo que me fez ver porque sempre amei e amo tanto esta cidade. Claro que a falta da felicidade do povo baiano sente-se muito numa cidade grande como Lisboa, muito porque como todas as cidades em que vivi ao chegar não tinha amigos.

Nesta fase tomei por melhor amiga, a minha avó materna. Ao que parece isto fazia tanta falta a ela como à minha pessoa. A verdade é que sem esta ajuda não sei se a solidão de tão grande cidade seria suportável. Com o tempo e com a ajuda da minha actual faculdade consegui conhecer pessoas com quem posso contar nos momentos de dificuldade.

No meu segundo ano em Lisboa achei que era momento de conhecer o meu país assim como o de nuestros hermanos. Assim com a companhia de um amigo que veio me visitar do Brasil parti a conquista de tão belas paragens. Como filho de Diplomata, em terras de pouco reconhecimento pelo seu empenhamento à sua pátria, tive algumas dificuldades em amealhar capital para tão prometedora aventura. Mas como o meu carro tem bancos reclináveis, o quarto de hotel estava encontrado para todas as cidades a que me desloquei. Conheci gente em Madrid, Barcelona, Guimarães, La Coruña, Braga, Sevilla entre tantas outras cidades por esta nossa península fora. Isto ajudou-me a fazer-me entender que é aqui que quero viver o resto da minha vida.

Poderia concluir dizendo que agora sou muito feliz, que vou casar com o grande amor da minha vida, ou que o futuro só me pode ser favorável, mas a verdade é não sei o que este me guarda ou como chegarei ao dia (longínquo espero) da minha morte. A grande verdade que aprendi com os anos é que sem apreciar um bom por do sol pelo menos uma vez na vida não se entenderá porque um dia de chuva pode ser tão triste.

5 comentários:

Mara Santos disse...

bem, conheci este blog através do blog da antena 3 e depois desta autobiografia não resisti deixar um comment.

tb nasci em 1980 e é bom saber que não sou a unica deste ano a curtir à brava um pôr de sol.

felicidades

Maria disse...

É bom saber que uma pessoa tão nova pode ter tanto discernimento... Parabéns, e continua a guardar as tuas memórias, já tão ricas!

aquelabruxa disse...

ainda não tinha reparado que escreves desde 2002, ler este blogue é quase ler um livro. por isso voltarei para este texto e os outros que faltam.

António_Pinto_de_Mesquita disse...

Obrigada. :)

Anónimo disse...

descobri este blog através do blog das dores e cores. prometo vir lê-lo melhor. Acho curtido as memórias de menos de vinte anos...

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